sábado, 7 de janeiro de 2017

07 de Janeiro de 1936 – Lisboa, cheia de névoa



O Vento espanhol enchia a calha da rua António Pedro de leitosidade [que se insinuava em cada estore de aço enferrujado] quando Pablo Coriolano desceu do elétrico que o conduzira desde o Cais do Sodré, um dos três únicos a funcionar devido ao racionamento. 

Olhos de ódio e medo o espiavam pelas frestas dos ditos estoreslá se vem o brasileiro. Apesar disso, e por não ver nada na rua enregelante, considerava-se só. Arrastou as duas malas o melhor que pôde, tentando equilibrar o cartão do Comando para os Territórios Subjugados [com sede em Salvador, Bahia] em uma das mãos. 

A meio quarteirão da Rua Pascoal de Melo encontrou um prédio bege. Subiu dois lances de escada e escontrou uma placa de bronze descascado – residência oficial do Oficial-Administrador da Freguesia dos Arroios. Entrou, pingando da chuvinha lá fora. Chegara ao seu novo lar.

Pablo Coriolano diferia dos outros oficiais do Ministério Brasileiro das Colônias. Em parte [é claro] por razões intelectuais – acreditava em que todos os seres humanos eram fundamentalmente iguais em um país [e um Estado] que pregava o exato oposto. Porém mais que isso, tinha uma visão romântica do que era ser um colonizador. Os brasileiros invadiram e colonizaram a Europa, era certo. Isso gerava ódio. E de forma pouco menos que ingênua acreditava que cabia a ele fazer a ponte entre vencedores e vencidos.

Chegava molhado e frustrado, pois contava chegar como novo Oficial  o dia em que invasão completasse um ano, mas errou por dias.

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