segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

09 de Janeiro de 1901 – Multi inutil linguismo



Adriano Moreira decepcionou-se duas vezes: a primeira [inevitavel e freudianamente] se deu quando descobriu que os pais não lhe podiam trazer o planeta Saturno, nem fazer chuva pois gostava de sentir as gotinhas à noite. 

A segunda ocorreu quando [tendo nascido no lugarejo de Lagarto em Sergipe três décadas e meia antes] descobriu que não só os pais eram imperfeitos, mas que a terra em que nascera também o era.
Mais forte que a primeira, a decepção segunda se estendeu sobre os livros de poesia que gostava de escrever [de um simbolismo aguado mas que alguma razão a imprensa amava]. 

Infeliz com os Pais, infeliz com o Chão, infeliz com o Tempo [em que lhe coube viver] Adriano Moreira mudou seu nome para a singela e incompreensível denominação de Daewon, e sob este pseudônimo publicou seu mais recente livro de poemas.

Ich wollte doch nur kurz leben mit dir [traduzido de maneira mais que discutível como Volte sempre a viver comigo] chama a atenção não só pelo improvável título em uma língua que poucos compreendiam como pelo fato de que esta mesma língua pouco significava no texto – de fato o título era a única coisa escrita em alemão na obra inteira. 

A obra [todo os trinte e três sonetos e as dezenove microepopoeias] estava escrita um verso em cada língua. Como faltaram línguas para tanto, o autor investiu em dialetos, alguns próximos como uma variedade do galego falada em três aldeias do Minho, e outros distantes como o samoiedo-altaico.

O único verso na língua óbvia era Oh Tempo, teus Humores – que teve exatas 477 interpretações – nenhuma deveras convincente.

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