segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

23 de Janeiro de 1911 – O Pacifista

Deus, o Destino ou o Diabo [e o fato de essas três palavras começarem com a mesma letra não deixou de dar margem a interpretação ocultistas] quis que [de todas as pessoas] José Fernando Gonçalves Guerra Silva de Souza dissesse o que todos pensavam. A ironia vem de que o grande poeta brasileiro do tempo tivesse como nome mais comum Fernando Guerra, em contraste com a atuação pela qual se tornou mais conhecido.

Fernando Guerra publicara nove opúsculos, o maior deles com 85 páginas. Seus poemas [que não deixavam de ter alguma quantidade de fãs] se concentravam na temática das flores e dos riachos, e da beleza da relva no estio. Seu verso mais popular Sinto-me como um ator numa peça que nunca chega ao final convenceu a críticos e poetas de que aquele cara falaria sobre coisas do coração e da melancolia, e só.

Naquele 23 de janeiro Fernando Guerra se desviara de fileiras de soldados [poucos dias antes o Poder no País relembrara os 12 anos do assassinato de Campos Sales, o que ocasionara uma onda armamentista]. O poeta subiu ao púlpito [faria um pequeno sarau] e disse O Brasil se tornou imperialista.

A Junta Provisória confinou-o em alguma ilhota. Depois de solto voltou a falar simples Antes éramos inofensivos – hoje os vizinhos nos temem.

A Junta [e a turba ignara] enviou o poeta a um campo de reeducação. No mesmo dia [em canto de página]imprimiu-se a novidade de treinamento de tropas na fronteira do Peru. O peta [dizem] sentiu-se cada vez mais ator, o Brasil como palco.

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