sexta-feira, 3 de março de 2017

3 de Março de 1905 – Da Inexistência do Carnaval Brasileiro

Não se pode dizer [e com justiça ninguém o diz] que Flavius Tarquinius de Araújo da Matta-André não se tenha esforçado. O mais fracassado de todos os inovadores brasileiros rejeitou a metalurgia [tradicionalíssima ocupação de uma família obcecada por vergalhões e trilhos de ferro gusa] e se tornou homem da antropologia. E partiu para o Mundo.

Voltou cheio de ideias, e não só com elas – trouxe arcas de roupas coloridas, plumas, manuais de dança, instrumentos de percussão e partituras. Mais que isso, trouxe um conceito novo – que elaborara aos poucos, em lugares tão distintos quanto Veneza e Enugu, na Nigéria. Marcou conferência no Teatro Central do Estado [o novo regime civil queria provar que era sério, daí a sobriedade do nome].

E naquele dia 3 disse que o Povo Brasileiro caminhava para ser o mais poderoso do mundo. Mas o Poder não era tudo. E queria transformá-lo também em um povo alegre. Como não tínhamos festas, resolveu trazê-las de outros países – juntou enfeites da Itália, melodias do Sul da França, ritmos da África, enredos da Arábia e enfeixou tudo com uma esquecida festa do tempo do Império Romano, criada para comemorar o Deus Baco, com muita comilança de carne. Propôs a grande festa brasileira.

A Plateia não o vaiou. Ouviram-se até aplausos. O apupo foi o pior possível – ignoraram-no. Flavius Tarquinius voltou a malhar aço vanadiado e morreu desgostoso com tudo e com o povo.

E é por isso que o brasileiro, o povo maois poderoso do mundo, não tem Carnaval.

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