sábado, 4 de março de 2017

4 de Março de 1885 – Chaminés invadem o Parnaíba

Vejo o Novo Mundo/Cidades a lançar tentáculos/Poemas em forma de vigas/E em seiscentos quilômetros de fuligem/Vi apenas uma flor/da qual tirei ferrugem - Margarida Aristóteles de Morais-Virgílio partiu hoje [não por coincidência o dia de seu 37º aniversário] da pontinha sul do rio Parnaíba [que ainda era por muitos conhecido por rio Mingkush, nome colocado pelos antigos colonos quirguizes] para o Mar.

A mais aventurosa de todas as poetisas brasileiras não parecia ter vocação para o extraordinário. Seu pai o Marechal Morais-Virgílio fora um vice-presidente da Ditadura dos Sete Generais, e a filha parecia destinada a tocar piano e ser boneca de algum milionário do Vale do Metal.

Tomou uma roupa de aniagem, um par de pistolas [filha de militar, sabia o que fazer com elas], maquiou-se de mendiga ou de funcionária da alfândega [conforme às circunstâncias] e [em grande parte do caminho a acompanhar uma troupe de saltimbancos] desceu o grande rio.

Espantou-se. A província do Piauí [e sua vizinha] tinham se tornado em vinte anos o maior polo siderúrgico do mundo. Tropas de trabalhadores revezavam-se dias e madrugadas a fazer latas e canhões.

Onde tomos viam progresso, Margarida Morais-Virgílio via fuligem.

Escreveu [às noites na carroça dos saltimbancos] os 3.766 versos do seu Mar de Chaminés. De fato, era essa a paisagem que se via na maior parte do Vale. Seu livro foi combatido pelos assim chamados adepto do progresso.

Hoje os ecologistas a veem como precursora.

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