domingo, 5 de março de 2017

5 de Março de 1739 – Viva a Selva e Morram os Fracos

O Último Herói do Potentado dos Xarayes [um dos quatro grandes reinos que por três séculos e um sétimo guerrearam pelo território nacional] desapareceu hoje à beira do Lago que deu nome ao seu Estado [o Lago dos Xarayes]. De suas tropas, metade se tinha vergonhosamente vendido ao inimigo, e o restante fizera dispersão pelas matas ou para os massacres.

De nome previsivelmente mestiço, José Amunir de Shinkiang-Souza pouco tinha de heroico [dizem os testemunhos das únicas sete pessoas que o conheceram com alguma proximidade]. A começar da estatura abaixo de um e sessenta e da discreta gagueira.

O último dos guerreiros da Renovação Mandchuriana [o Império dos descendentes de migrantes orientais na Sul-América] destacava-se apenas por sua enorme coerência. Todos os profetas da violência só o são porque se encontram em posição de força: os fortes justificam o uso da força, os fracos apregoam as virtudes do Pacifismo.

Shinkiang-Souza decididamente não era forte: quando assumiu o comendo das tropas, seu Reino estava resumido a um semicírculo apertado entre o alicate da Irmandade do Parime [que atacava pelo Norte] e o Exarcado dos Pretorianos, a tropa dissidente que o envolvera pelo Sudoeste.

Em seu último discurso [repetido em seis dos sete testemunhos] o herói baixinho de olhos puxados declarou que a Força é o Direito, e sua frase mais citada [embora não exatamente de forma literal] foi Viva a Selva e Morram os Fracos.

O último herói desapareceu na última batalha.

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