quarta-feira, 12 de abril de 2017

01 de Abril de 1867 – O Mais Dramático dos Homens

João Ilianovitch de Raskholnikov-Cardoso desembarcou hoje [um dia particularmente desprovido de nuvens] no porto artificial de Palos [um pouco acima do Rio] construído por um dos breves governos democráticos de antes do golpe de 1877. Aos oficiais de imigração dera seus novos primeiro e último nome, sepultando os originais sob toneladas de esquecimento.

Pensou [não sem drama, mas Rashkolnikov era desesperadoramente dramático] neste momento  morro, neste  momento um outro começa a viver e coerentemente quis dar a sua bolsa de viagem [com tudo o que tinha] para algum menino esmoler famélico com cara de sofrimento que lhe pedisse moedas no cais. [De fato, fantasiava viver nova vida em um lupanar empanturrado de pus, tísica e meretrizes].

Para sua surpresa não encontrou nenhum menino esmoler famélico com cara de sofrimento que lhe pedisse moedas no cais. De fato não encontrou menino nenhum [e se tivesse pesquisado um pouco (não o fizera), saberia que o Estado não sabia como lidar com uma violenta queda na natalidade – por isso sorvia imigrantes, sem se importar se eram russos paranoicos].

Rashkolnikov quase cometera um duplo homicídio [de uma velha usurária e de sua irmã]. Arrependia-se - na última hora não empurrou o punhal – e não sabia se seu arrependimento era de ter pensado em matar pessoas ou de não ter matado mesmo.

Enquanto pensava se se tornava monge ortodoxo ou se se jogava nas águas geladas do Rio Neva, viu um cartaz oferecendo vida nova do outro lado do Atlântico.

Nenhum comentário:

Postar um comentário