segunda-feira, 5 de junho de 2017

19 de Abril de 2341 – Manuscrito encontrado muito tempo além

Escrevo sobre um país que não deu certo de um planeta destinado à destruição em uma língua que ninguém fala, e isso, longe de me apequenar, me torna mais grandioso – ou o contrário.

Manuel de Gonzaga Oliveira [diz a lenda – que, como toda lenda, o mais provável é que seja falsa] escreveu sete peças teatrais, trinta e dois romances, dezessete ensaios de fôlego e cento e um opúsculos, sem contar as crônicas e os sonetos. Essas estatísticas, por motivos logo óbvios, são todas especulativas.

Manuel de Gonzaga Oliveira [nunca quis abreviar ou diminuir o nome] viveu numa ponta de areia na barra do Rio São Francisco [a única ainda livre da língua negra de restos químicos] no lugar em que este se encontra com o estuário do rio Doce [desde as mudanças de correnteza no Século XXII os dois rios virtualmente se encontram].

Viveu a maior parte da sua vida só, o que não era grande proeza no Brasil da época. Desde a grande depopulação do ano 2230 [que apesar de ser assim conhecida durou uma geração para se concluir] os brasileiros passaram de algo como um bilhão e um bilhão e meio [ninguém soube a cifra exata] para vinte milhões [o que também é especulação – alguns dizem que é muito menos]. Sobreviventes meio eremitas como Manuel de Gonzaga Oliveira viviam de cápsulas de comida inutilmente enterradas pelas pessoas.

Sabia que escrevia para ninguém ler. Isso lhe dava um curioso orgulho. Embora tal também seja especulação, pois ninguém pôde lhe perguntar nada.

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