sexta-feira, 14 de julho de 2017

10 de Maio de 1900 – Ulan Bator, qualquer esquina



 Do outro lado do mundo é difícil imaginar que haja esquinas em Ulan Bator, pero que las hay, las hay. Também é difícil pensar que lá existam casas e ruas – no máximo algumas tendas, iaques, queijo de leite de iaque e o fantasma de Genghis Khan. Mas [por incrível], em Ulan Bator não só há esquinas como numa delas assentou-se [em um tamborete decepcionantemente fabricado em indústria] Batbayar em uma tarde fria [como todas] neste maio. Pitou algo parecido a um cigarro de palha e disse:

 - Os brasileiros estão a chegar.

E ninguém entendeu nada. Nem em Tov, Bulgan ou Suhbaatar, ninguém tinha ouvido falar nessa gente – e na verdade desconheciam que era mesmo gente.

Batbayar [para desespero dos que o imaginavam com barba de dois quilômetros e veneráveis rugas de Cânion] não levava tempo nas costas. [Se houvesse certidões de batismo, saberiam tinha quando muito seus dezesseis]. Possuía a enorme vantagem [ou peso] de se lembrar de cada detalhe de sua vida, mesmo curta: parentes o testavam a perguntar a cor das tranças de certa boneca que ficou no seu quarto por uma semana quando ele tinha três meses de idade, e ele não só dizia a cor como corrigia que a boneca ficara por uma semana e meia.
Pela primeira o profeta do passado vez profetizou o futuro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário