quinta-feira, 20 de julho de 2017

14 de Maio de 1701 – Os desertos



Dos 99 desertos entre o Atlântico e o Pacífico, eu [novo Marco Polo] percorri sete mil setecentos e setenta e sete [segundo algumas versões – segundo outras, são mais de dezenove mil]. 

Esta impossibilidade física [afirmam três dos manuscritos encontrados a respeito] se resolve pela multiplicidade de impressões – ao contrário do que pensa o senso comum, os desertos não se constituem em marasmo de areia, pedras, um ou outro camelo e raros laguinhos com tamareiras em volta. Eu [novo Monet] descobri que mudam a cada hora [quiçá, dizem, a cada minuto] e não só pela incidência da luz do sol, mas por fatores até o momento desconhecidos e que deixarão de sê-lo com o tempo, se o tempo for infinito – o infinito do próprio deserto, que eu [novo Borges] não cesso de apreciar e assustar-me.

De fato me é difícil saber se percorri os 99 desertos, 7.777 ou muitos mais – a falta de mapas confiáveis e de relógios [os quais, diga-se de passagem, só consultei por três vezes em todas minha vida] faz a impressão que tenho deles múltipla e una, que eu [novo Pollock] procuro entender, desacreditando na existência do acaso.
E descobri [por mim mesmo ou com ajuda de meu discípulo, ou estagiário, como se diz hoje] que entre todos os desertos só havia algo em comum. Depois de muito caminhar, entendi que nunca saí do canto – e [novo Proust] descobri que o deserto sou eu.

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