quinta-feira, 27 de julho de 2017

18 de Maio de 1889 – A escravidão se ser-se



Maria Camila Chaek-Leuenroth sonhava. [De fato a filha do poeta Amadis Chaek sonhava desde o ventre da mãe – e lembrava]. Via uma caixa vazia, e dentro dele outra caixa vazia, e a partir daí cada sonho tomava seu caminho.

Em alguns, ela rasgava a caixa, com violência [Genghis Khan dos trópicos] com tanto mais drama porque o fazia com uma cimitarra recurva. Em outros, chorava [filha de médico ou operário] em frente às caixas, e elas [como que comovidas] desfaziam-se como pétalas de uma flor marrom.

Na maior parte das vezes ela abria uma após a outra – e quem variava, no caso, não eram as caixas – era ela mesma: às vezes quem abria era uma jovem que vivia nos trópicos [ou seja, a vida que ela vivia]; noutros, era príncipe Hamlet [que nunca, nem mesmo nesse momento, deixava de se atormentar com a fantasia de matar o Rei Cláudio]; noutras era um monge centenário cuidador de algum orago perdido pelas cimeiras dos montes Cárpatos – espantado com o fato de que o Senhor não o chamara para estar com ele naquela noite. 

Em todos esses momentos [e talvez por causa deles] não descobria o que estava dentro da última das caixas – no sonho, sempre alguém irrompia com a notícia da batalha de Waterloo ou com forte dor de barriga – e nunca se chegava ao final.

Maria Camila Chaek-Leuenroth descobriu [afinal] que, mais importante que que qualquer coisa que estivesse lá dentro, importavam os personagens que criava – e que superavam qualquer escravidão de passar toda a vida sendo a mesma pessoa.

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